terça-feira, 5 de julho de 2011

Peixe Grand




Tem dias que sinto saudades do meu avô. Hoje foi um deles.


Tava procurando um filminho e me deparei 
o DVD de um show do Enio Morricone, o
 último que ele assistiu, quietinho, antes 
de ser internado no hospital para não sair mais.

Meu avô não era bolinho. Era teimoso, só 
fazia o que ele queria, como ele queria. 
Não falava muito, não reclamava de dor,
 nunca tomava remédio e andava devagar 
por conta de um acidente mal cuidado.
 Quando ele era jovem quebrou vários 
os dedos dos dois pés e, com medo do
 pai (meu biso), calçou os sapatos, 
agüentou a dor e nunca tratou do problema direito. 
Acabou com os dedos tortos para sempre.

Como eu fui a primeira neta do lado da minha mãe 
e estava sempre na casa ou no sitio deles, acabei 
convivendo mais com ele do que com o meu outro
 avô (mesmo porque ele acabou falecendo
 quando eu tinha 8 anos).

Muitas lembranças da minha infância são de quando
 a gente ia tomar sorvete, quase sempre de pistache.
 De como ele adorava chocolate, de como ele sempre
 estava de calça social, camisa e sapato (até na praia), 
de como ele estava sempre trabalhando ou consertando 
alguma coisa no sítio, da paciência quando ele me ensinou
 a dirigir e do barulho das 87679 chaves no bolso dele quando
 ele andava, naquele ritmo só dele.

Quando ele começou a dar os primeiros sinais de que estava
 doente chegava a ser engraçado. Ele sempre tinha uma história 
mirabolante pra contar e quase sempre era algo que tinha acontecido
 com ele ou por causa dele.

No seu último aniversário ele já estava mais calado do que nunca. 
Como ele estava numa fase chapéu, dei um boné escrito “Vô”. 
Mesmo não falando muito, sei que ele adorou, já que sempre que 
estava sem ele, queria saber onde estava o “boné do vô”.

Segundo a minha mãe, a última vez que ela ouviu o meu avô dar risada
 foi quando eles lembraram de como eu, super barbeira, derrubei um murinho 
porque não consegui apertar o freio do carro a tempo.

Como ele não ficou na UTI, como a minha avó, consegui ir visitá-lo 
mais vezes no hospital. Uma dessas vezes fiquei umas 2 horas com 
ele no quarto conversando... quer dizer eu falando e ele lá, como se
 estivesse ouvindo. A última coisa que falei para o meu avô foi “Vô, 
quando você melhorar vou trazer um chocolate dos bons pra você, beleza?”
 Espero que do lado de lá ele esteja comendo um monte deles...

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